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Dicionário de dados de marketing: o que entra e por que a IA precisa dele

Dicionário de dados descreve cada métrica: nome, definição, fonte, dono, fórmula e exclusões. Um documento de 4 KB elevou a acurácia da IA em 17 a 23 pontos.

· 7 min de leitura · Gabriel Sorato

Dicionário de dados é o registro que diz, para cada campo e cada métrica de uma base, o nome, o que significa, de onde vem, quem responde por ele, como se calcula e o que fica de fora. Para a IA, ele é o mínimo: num teste de abril de 2026, um documento de definições de 4 KB elevou a acurácia de três modelos em 17 a 23 pontos percentuais (Rumiantsau e Fokeev, 2026).

Dicionário de dados: documento, mantido junto com a base, que registra para cada campo ou métrica o nome canônico, a definição em linguagem de negócio, a fonte, o dono, a fórmula e as exclusões, de modo que qualquer pessoa ou sistema que leia o número saiba o que ele contém.

O que entra num dicionário de dados de marketing?

Seis campos por métrica. Menos que isso deixa espaço para adivinhação; mais que isso vira formulário que ninguém preenche.

Nome. Um só, em minúsculas, sem sinônimo circulando em paralelo. Se o time fala “faturamento” e o financeiro fala “receita”, o dicionário escolhe um e registra o outro como apelido aposentado.

Definição. Uma frase em português de negócio, que o diretor entende sem abrir o SQL.

Fonte. O sistema e a tabela de onde o número sai: VTEX, ERP, Google Ads, Meta Ads, GA4. Quando duas fontes podem responder, o dicionário diz qual manda.

Dono. A pessoa ou área que arbitra quando alguém discorda. Sem dono, a definição volta a divergir no trimestre seguinte.

Fórmula. A conta, escrita de um jeito que dê para conferir: numerador, denominador, agregação e qual data manda (pedido, pagamento ou faturamento).

Exclusões. O que não entra: frete, imposto, cancelamento, devolução, pedido de teste, venda interna. É o campo mais curto e o que mais evita discussão.

Abaixo, um modelo com dez métricas de e-commerce. As regras são um exemplo, não uma recomendação universal: a sua operação pode decidir diferente, e o que importa é que decida por escrito.

NomeDefiniçãoFonteDonoFórmulaExclusões
receita_brutaValor dos pedidos aprovados no períodoVTEX (pedidos)E-commercesoma do valor dos itens, por data de pagamentofrete, pedido de teste
receita_liquidaO que a empresa reconhece como vendaERPControladoriareceita faturada − cancelamento − devolução, por data de faturamentofrete, imposto
pedidosPedidos que chegaram ao status faturadoVTEX, status invoicedE-commercecontagem de pedido_id distintoscancelados, pedidos de teste
ticket_medioValor médio por pedido faturadoderivadaControladoriareceita_liquida ÷ pedidosas de cada componente
sessoesVisitas ao siteGA4Marketingcontagem de sessõestráfego interno filtrado
taxa_de_conversaoFração das sessões que viraram pedidoderivadaMarketingpedidos ÷ sessoespedidos de marketplace (não têm sessão no site)
investimento_midiaGasto em mídia pagaGoogle Ads, Meta AdsMídiasoma do custo, por data de veiculaçãoimpostos sobre mídia, se lançados à parte
roasReceita por real investido em mídiaderivadaMídia + Controladoriareceita_liquida ÷ investimento_midiareceita que a plataforma atribui a si mesma
clientes_novosClientes com a primeira compra no períodoERPCRMcontagem de CPF sem pedido anterior na marcacompras só em marketplace
taxa_de_devolucaoFração da receita devolvidaERPOperaçõesdevolução ÷ receita faturada, por data da devoluçãotroca sem estorno

O roas está definido sobre a receita líquida do ERP, não sobre a receita que cada plataforma declara, e isso sozinho muda o número em qualquer operação que anuncie em mais de um canal. E a devolução sai na data da devolução, não na do pedido, o que reescreve todo mês já fechado. As duas são decisões de negócio. O dicionário só as torna visíveis.

Como um dicionário de dados funciona na prática?

Ele funciona quando está onde o número é lido, não numa pasta de onboarding.

O exemplo mais à mão é o do próprio Google. A referência de métricas da API de dados do GA4, atualizada em 22 de outubro de 2026, é um dicionário de dados: descreve grossPurchaseRevenue como “a soma da receita de compras”, purchaseRevenue como essa soma menos as transações reembolsadas e totalRevenue como a soma de compras, assinaturas e publicidade. São três receitas com três definições escritas. Quem pergunta “qual foi a receita?” e não diz qual vai receber uma delas, escolhida por quem respondeu.

No seu próprio banco, o dicionário costuma morar em três lugares, do mais frágil ao mais útil:

  1. Planilha ou wiki. Funciona enquanto alguém lembra de abrir. O agente de IA não abre.
  2. Descrição de coluna no projeto de dados. No dbt, o campo description documenta modelos e colunas e aparece no site de documentação (dbt). Com persist_docs, essas descrições viram comentário de coluna dentro do próprio warehouse, em Postgres, Redshift, Snowflake, BigQuery e Databricks (dbt).
  3. Contexto entregue à IA a cada pergunta. É onde o dicionário passa a mudar resposta, e é o caso que o teste de abril mediu.

A própria documentação do dbt trata description como metadado. Ela não altera o SQL nem o resultado. A descrição informa quem lê; ela não impede ninguém de calcular diferente.

Qual a diferença entre dicionário de dados e camada semântica?

O dicionário descreve; a camada semântica executa. É a fronteira que mais confunde, porque os dois guardam “a definição de receita líquida”.

CritérioDicionário de dadosCamada semânticaContrato de dados
O que guardaSignificado, fonte, dono, exclusõesA regra de cálculo em formato que a máquina executaFormato, tipos e garantias de uma tabela
Quem lêPessoas e a IA, como contextoO sistema, antes de gerar a consultaO pipeline, no momento do build
Se alguém ignorarO número sai diferente e ninguém é avisadoNão dá para ignorar: a consulta passa por elaO build falha, se a cláusula for aplicada
Exemplo concretodescription de coluna no dbtmétrica do tipo ratio no dbt, com numerador e denominadorcontract: enforced no dbt
Pergunta que respondeO que este número quer dizer?Como este número é calculado, sempre igual?Esta tabela chegou no formato prometido?

Na camada semântica, a métrica é um objeto com tipo e parâmetros. O dbt aceita cinco tipos (simples, razão, acumulada, derivada e conversão), e uma métrica de razão declara numerador e denominador em YAML (dbt). A Snowflake descreve o mesmo mecanismo do lado do agente: o Cortex Agents lê a definição da semantic view e gera o SQL contra as tabelas físicas a partir dela (Snowflake). O contrato, por sua vez, protege o formato da tabela e não o significado; o post sobre contrato de dados mostra o que ele aplica e o que só declara.

Por que a IA precisa do dicionário, e por que só ele não basta?

Porque o erro mais comum de um agente sobre dado de marketing não é de conta: é de definição. O modelo escolhe um campo entre vários plausíveis, calcula certo e entrega o número errado. É o que chamamos de alucinação de métrica.

O teste de Rumiantsau e Fokeev, publicado em 28 de abril de 2026, mediu exatamente isso: 100 perguntas em linguagem natural sobre uma base de varejo, respondidas por Claude Opus 4.7, Claude Sonnet 4.6 e GPT-5.4. Sem contexto, a acurácia ficou entre 45,5% e 50,5%. Com um arquivo markdown de 4 KB descrevendo medidas, convenções e regras de desempate, subiu para 67,7% a 68,7%. A diferença entre modelos foi pequena perto da diferença que o documento fez.

Quatro quilobytes de texto pesaram mais do que a escolha do modelo, e esse é o melhor motivo para escrever o dicionário.

E é também o limite dele. Mesmo com o documento, cerca de um terço das respostas continuou errada. Na minha leitura, o motivo é mecânico: o agente lê a descrição e ainda precisa escrever a consulta. Entre “receita líquida exclui frete” e o SQL correto existe uma tradução, e cada tradução é uma chance de errar o filtro, a junção ou a data. Quando a regra está numa camada semântica, essa tradução já foi feita e testada uma vez, e o agente consulta a métrica em vez de reconstruí-la. É o que diferencia text-to-SQL governado de text-to-SQL solto.

Então a ordem prática é esta: o dicionário vem primeiro, porque sem decisão escrita não há o que executar. A camada semântica vem depois, para as métricas que a IA vai consultar sem supervisão. Na Precisian, essa camada fica sobre um data lake isolado por cliente, na nossa infraestrutura, e chega à IA, ao BI ou à automação do cliente por servidor MCP e API.

O que um dicionário de dados não é?

Não é catálogo de dados. O catálogo inventaria o que existe (tabelas, colunas, quem acessa). O dicionário diz o que cada coisa significa. Um catálogo pode listar dez colunas chamadas receita sem dizer qual delas é a certa.

Não é glossário de negócio. O glossário define o conceito (“cliente novo é quem compra pela primeira vez”). O dicionário amarra o conceito a uma coluna, uma fonte e uma fórmula.

Não é o esquema do banco. O tipo numeric(12,2) diz que o campo guarda dinheiro. Não diz se é bruto ou líquido, nem em qual data.

Não é tarefa de TI sozinha. Quem escreve a coluna “dono” é o negócio. Um dicionário preenchido só pela engenharia descreve o que o código faz, que pode não ser o que a empresa decidiu.

Quando vale a pena escrever um?

Quando aparece a segunda fonte para o mesmo número, ou o primeiro agente de IA com acesso à base. Antes disso, com uma loja, um sistema e uma pessoa respondendo, a definição pode morar na cabeça de alguém sem custo.

No varejo brasileiro, esse ponto chega cedo. Basta vender em loja própria e em marketplace ao mesmo tempo: o pedido do Mercado Livre não tem sessão no seu GA4, a conversão do site e a do marketplace deixam de ser comparáveis, e “cliente novo” passa a depender de qual base você consultou. Com Pix, pedido e pagamento caem no mesmo instante; com boleto, ficam dias separados, e a métrica que não diz qual data manda muda de valor conforme o mix de pagamento do mês.

Um exemplo sintético, com números redondos inventados para a conta: dois meses com o mesmo faturamento e uma devolução feita em abril, de um pedido de março.

Regra de data da devoluçãoReceita líquida de marçoReceita líquida de abril
Sai na data do pedidoR$ 950 milR$ 1 milhão
Sai na data da devoluçãoR$ 1 milhãoR$ 950 mil

Nenhum dos dois números está errado. Só um deles é o da sua empresa, e é o dicionário que diz qual.

Minha sugestão é começar pelas três métricas que geram mais reunião, quase sempre receita, ROAS e cliente novo, e não pelas cem colunas da base. Os outros campos entram quando alguém perguntar por eles.

O que este artigo não cobre?

Não compara ferramentas de catálogo nem de documentação. Não mostra a implementação de uma camada semântica completa, que está em camada semântica. E o número citado mede acurácia de resposta num benchmark de varejo com 100 perguntas: não mede retorno financeiro, e este artigo não afirma nenhum.


Se a IA da sua empresa responde “receita” e ninguém sabe dizer qual das receitas ela usou, o primeiro passo é medir quantas definições do mesmo número circulam hoje. Veja na prática como a definição chega à IA pela camada semântica, sem compromisso de contrato, mas sem promessa de resposta em 30 minutos também.