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LTV/CAC no e-commerce: como calcular quando parte da venda é marketplace

LTV/CAC divide a margem que o cliente deixa pelo custo de trazê-lo. Com marketplace, a loja perde a recompra e a plataforma barateia o CAC.

· 8 min de leitura · Gabriel Sorato

LTV/CAC é a razão entre a margem que um cliente deixa ao longo do relacionamento (LTV) e o custo de adquiri-lo (CAC). Quando parte da venda acontece no marketplace, as duas pontas se distorcem. A Amazon documenta o e-mail do comprador como “anonimizado” (Amazon SP-API), então quem recompra lá some do LTV da loja. E o CAC calculado com conversões de plataforma herda janelas de atribuição de até 90 dias no Google Ads (Google), que contam o mesmo cliente mais de uma vez.

LTV/CAC: margem de contribuição acumulada por cliente de uma safra, num horizonte declarado, dividida pelo custo total de aquisição dessa safra. Sem horizonte e sem margem, o número não tem significado.

Como calcular o LTV no e-commerce?

LTV (lifetime value) é quanto um cliente deixa de margem ao longo do tempo. Existem duas formas de calcular, e só uma delas mede.

A fórmula de manual. Ticket médio × compras por ano × anos de vida do cliente × margem de contribuição. O problema é o terceiro fator: “anos de vida” é uma estimativa de churn, e no varejo não há cancelamento de assinatura para marcar o fim. O cliente para de comprar, e você só descobre meses depois.

A conta por coorte. Você pega todos os clientes que fizeram a primeira compra no mesmo mês (a safra), soma a margem que eles geraram mês a mês e divide pelo número de clientes da safra. O LTV de 12 meses da safra de janeiro é a margem acumulada até dezembro, por cliente. Não há estimativa de churn: o churn já está dentro do número observado.

Isso é análise de coorte. O Google Analytics define coorte como “um grupo de usuários que compartilham uma característica comum” e permite escolher o critério de entrada (primeira visita, primeira transação) e o de retorno (Google Analytics). Para LTV, o critério de entrada certo é a primeira compra, e a fonte certa é o pedido faturado, não o evento do navegador.

Três decisões precisam estar escritas antes do primeiro cálculo:

  • Margem, não receita. LTV em receita contra CAC em custo compara grandezas diferentes e infla a razão pelo inverso da margem.
  • Horizonte fixo. LTV de um ano e LTV de três anos são métricas diferentes. Um número sem horizonte não se compara com nada.
  • O que é um cliente. Conta, e-mail, CPF ou cartão produzem contagens diferentes das mesmas pessoas.

Como calcular o CAC?

CAC (custo de aquisição de cliente) é o custo total de aquisição de um período dividido pelo número de clientes novos do mesmo período.

As duas metades têm armadilha.

O numerador inclui toda a mídia de aquisição, mas também o que a mídia não mostra: cupom de primeira compra, frete subsidiado para cliente novo, honorário de agência, ferramenta. Quem usa só o gasto em mídia calcula um CAC de mídia, que é uma métrica legítima com outro nome.

O denominador é o número de CPFs (ou contas) que compraram pela primeira vez, contado na sua base de pedidos. Não é a soma das conversões que o Google Ads, a Meta e o TikTok reportam. Trocar uma coisa pela outra produz o CAC baixo demais da próxima seção.

O que a razão LTV/CAC mede, e o que ela não mede?

Ela responde: cada real gasto para trazer um cliente volta, em margem, quantas vezes dentro do horizonte escolhido?

MétricaFórmulaDe onde vem o dadoO que ignora
LTV/CACMargem acumulada por cliente ÷ custo de aquisição por cliente novoPedidos faturados + custo total de aquisiçãoO tempo até o retorno
ROASReceita atribuída ÷ gasto em mídiaRelatório de cada plataformaMargem, recompra e sobreposição entre plataformas
Payback do CACMeses até a margem acumulada da safra igualar o CACCoorte de pedidosO que acontece depois do payback
CAC de mídiaGasto em mídia ÷ clientes novosPlataformas + base de pedidosCupom, frete subsidiado, agência

LTV/CAC não é ROAS de longo prazo. O ROAS olha receita de uma janela curta, atribuída pela própria plataforma que vendeu o anúncio. O LTV/CAC olha margem de um horizonte longo, medida na sua base. Por isso a soma de ROAS das plataformas passa do faturamento e a razão LTV/CAC, calculada direito, não tem como passar.

Qual é a razão LTV/CAC ideal?

A referência que circula é “três para um”. Ela vem do SaaS. David Skok escreveu que “os melhores negócios de SaaS têm uma razão LTV/CAC acima de 3, às vezes de 7 ou 8” (Skok, For Entrepreneurs). A página não traz data de publicação original, e o próprio texto chama esses números de diretrizes que podem ser quebradas.

O três não se transfere para o varejo sem ajuste, por dois motivos.

Margem. Software tem margem bruta alta e quase nenhum custo variável por cliente. No e-commerce, frete, comissão de meio de pagamento e devolução comem a margem de cada pedido. A mesma razão significa coisas diferentes quando a margem por pedido é alta ou estreita.

Ciclo de recompra. Cosmético e suplemento recompram em semanas; colchão e eletrodoméstico, em anos. A razão de 12 meses de uma marca de colchão vai ser baixa mesmo que o negócio seja ótimo, porque a segunda compra cai fora do horizonte.

O que decide é o payback: em quantos meses a margem acumulada da safra paga o CAC, comparado com quanto tempo o seu caixa aguenta financiar esse intervalo. Skok, no mesmo texto, trata a recuperação do CAC acima de 12 meses como sinal de rentabilidade fraca para SaaS (Skok). Para o seu e-commerce, a meta sai da sua margem e do seu ciclo, não de um múltiplo emprestado.

Por que o marketplace distorce o LTV?

Porque o cliente que você adquiriu na loja própria pode voltar a comprar no Mercado Livre, na Shopee ou na Amazon, e essa recompra não chega à sua base com uma chave que identifique a mesma pessoa.

A Amazon devolve o e-mail do comprador como “o endereço de e-mail anonimizado do comprador” e não traz campo de identificador de cliente no pedido (Amazon SP-API). Sem chave comum, não há como juntar o pedido do marketplace ao histórico do cliente da loja. Os detalhes por canal estão em deduplicar venda entre site e marketplace.

O que existe é dado agregado. A SP-API documenta um relatório de recompra (Repeat Purchase) com pedidos, clientes únicos e percentual de clientes recorrentes por produto, por semana, mês ou trimestre, para marcas inscritas no Brand Registry (Amazon SP-API). Não confirmei a disponibilidade desse relatório na Amazon Brasil: a central de ajuda brasileira cita “Brand Analytics” entre os benefícios do Brand Registry, mas não lista os relatórios. Mesmo onde existe, ele diz quantos recompraram, nunca quem.

Por isso o LTV calculado só com a loja própria subestima o cliente multicanal. O tamanho do erro depende de quanto da sua recompra migra para o marketplace, e esse é justamente o número que nenhuma API devolve, pelo motivo descrito em marketplace é um buraco negro de dados.

Por que o CAC calculado com dado de plataforma sai baixo demais?

Porque cada plataforma conta como conversão tudo o que aconteceu dentro da janela dela, e as janelas se sobrepõem.

O Google Ads aplica janela padrão de 30 dias após o clique para campanhas de pesquisa e display, configurável de 1 a 90 dias (Google). A Meta reporta conversões por janelas de 1, 7 e 28 dias após o clique e de 1 dia após a visualização, entre outras (Meta Marketing API). Um cliente que clicou no Google e viu um anúncio na Meta antes de comprar vira uma conversão em cada uma.

Além disso, conversão de plataforma não distingue cliente novo de recorrente por padrão. Quem já é cliente e volta pelo anúncio entra na conta. Gasto dividido pela soma das conversões das plataformas dá um denominador inflado, e o CAC sai menor do que o custo real de trazer um CPF novo.

Os dois erros apontam em direções opostas. LTV de loja própria puxa a razão para baixo; CAC de plataforma puxa para cima. A razão pode parecer saudável por acidente, e não há como saber qual dos dois erros está ganhando.

Como fica a conta num exemplo?

Um exemplo sintético, com números redondos, de uma marca que vende na loja própria e no Mercado Livre. Nenhum número abaixo vem de cliente.

ItemValor sintético
Custo total de aquisição no trimestreR$ 150.000
Clientes novos na base de pedidos (CPF de primeira compra)1.000
Conversões reportadas: Google Ads + Meta900 + 700 = 1.600
Margem de 12 meses por cliente, só loja própriaR$ 300
Margem de 12 meses por cliente, recompra no Mercado Livre incluída (não observável por cliente)R$ 390
Como a razão foi calculadaCACLTVLTV/CAC
Conversões de plataforma + LTV da lojaR$ 93,75R$ 3003,2
Clientes novos da base + LTV da lojaR$ 150R$ 3002,0
Clientes novos da base + LTV com marketplaceR$ 150R$ 3902,6

A primeira linha passa no “três para um” e é a mais errada das três. A segunda é a única que se calcula com dado próprio, e é conservadora. A terceira é a verdade do exemplo, e na vida real não se observa cliente a cliente: só dá para estimar com o agregado do marketplace, declarando a premissa.

A recompra no marketplace também chega com margem menor, porque paga comissão do canal. Somar a receita dela ao LTV como se fosse venda da loja reintroduz o erro pelo outro lado.

O que LTV/CAC não é?

Não é uma métrica de canal. Calcular LTV/CAC “do Google” ou “da Meta” exige atribuir o cliente a um canal de origem, e a origem não vem no pedido de marketplace. LTV/CAC é uma métrica de safra.

Não é previsão. A conta por coorte descreve o que a safra já fez. Projetar o LTV de três anos de uma safra com quatro meses de vida é modelagem, e merece esse rótulo no relatório.

E não é um número único da empresa. Ele muda por categoria, por cupom de entrada e por canal de aquisição dentro da loja própria.

Quando isso passa a importar na sua operação?

No momento em que o marketplace deixa de ser canal de escoamento e vira lugar onde o seu cliente recorrente compra. A partir daí, o LTV da loja própria descreve só uma parte do relacionamento.

Para testar, compare a curva de recompra da loja própria entre safras antes e depois de entrar no marketplace. Se a recompra caiu sem que a margem total da marca caísse, o cliente continua comprando, só que no marketplace. A correção começa por escrever, num lugar que o analista e a IA leiam antes de calcular, o que conta como cliente novo, qual margem entra e qual horizonte vale. É a mesma disciplina de ter uma só definição de receita.

Na Precisian, pedidos da loja, pedidos de marketplace e gasto de mídia ficam no mesmo data lake isolado por cliente, com essas definições registradas na camada semântica e acessíveis por MCP, API ou pelo BI do próprio cliente.

O que este artigo não cobre?

Não traz LTV/CAC médio do e-commerce brasileiro. Procurei pesquisa com metodologia declarada e não encontrei; o que circula vem de fornecedor de software, sem amostra publicada.

Não descreve campos da API do Mercado Livre nem da Shopee. A documentação dos dois não se deixou ler por acesso automatizado, e o motivo está registrado em deduplicar venda entre site e marketplace.

E não trata de LTV preditivo com modelo estatístico. É assunto legítimo, mas depende de uma base de pedidos limpa, que é o que este texto descreve.

Se o seu LTV/CAC parece saudável e o caixa não confirma, o primeiro passo é recalcular o CAC com clientes novos da sua base de pedidos, e não com conversões de plataforma. Veja como o data lake da Precisian junta pedido, marketplace e mídia, sem compromisso de contrato, mas sem promessa de resposta em 30 minutos também.