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Data lake, data warehouse ou lakehouse: o que um e-commerce precisa (e em que ordem)

Data lake guarda o cru, data warehouse guarda o modelado, lakehouse tenta as duas coisas no mesmo arquivo. Nenhum dos três define o que é receita.

· 8 min de leitura · Gabriel Sorato

Data lake guarda o dado bruto, no formato em que ele chegou, em armazenamento barato. Data warehouse guarda o dado já modelado, pronto para consulta rápida. Lakehouse é a tentativa de fazer as duas coisas sobre os mesmos arquivos abertos, como definiram Armbrust, Ghodsi, Xin e Zaharia no CIDR de janeiro de 2021 (paper). Para um e-commerce, a ordem é guardar cru primeiro e modelar depois. E nenhum dos três define o que é receita.

Data lake: repositório que recebe o dado como a fonte entrega, sem esquema imposto na escrita; o esquema é aplicado na leitura. Data warehouse: repositório de dado já integrado e modelado em tabelas, com esquema imposto na escrita, otimizado para consulta analítica. Lakehouse: “um sistema de gestão de dados baseado em armazenamento de baixo custo e acesso direto que também oferece recursos de gestão e desempenho de um SGBD analítico, como transações ACID, versionamento de dados, auditoria, indexação, cache e otimização de consulta” (Armbrust et al., CIDR 2021).

Como cada um funciona, sem a definição de fornecedor?

A diferença entre os três está no momento em que alguém decide a forma do dado.

No data lake, ninguém decide na entrada. O JSON da API do Meta Ads, o CSV do Mercado Livre e a exportação do GA4 entram como vieram. O termo foi cunhado por James Dixon, então na Pentaho, num post de 14 de outubro de 2010: se o data mart é água engarrafada, “limpa, embalada e estruturada”, o lake é o corpo d’água “em estado mais natural” (Dixon, 2010). O custo da flexibilidade aparece depois: cada consulta precisa interpretar o arquivo de novo.

No data warehouse, alguém decide antes. O pedido vira uma linha com colunas definidas, o gasto de mídia vira outra tabela, e as duas se juntam por data e canal. A consulta é rápida porque o trabalho de interpretação já foi feito, uma vez.

O lakehouse põe uma camada de metadados transacional sobre os arquivos do lake. O paper de 2021 descreve exatamente isso: arquivos abertos, como Parquet, mais uma camada que registra quais arquivos compõem a tabela em cada versão (CIDR 2021). Na prática, essa camada é um formato de tabela aberto. O Apache Iceberg se descreve como “an open table format for huge analytic datasets”, com commit atômico, isolamento serializável e time travel, que permite repetir uma consulta sobre o mesmo snapshot (Iceberg).

O mesmo paper explica por que a terceira categoria apareceu: na arquitetura de duas camadas, o dado é carregado no lake e de novo no warehouse, e cada etapa “risks incurring failures or introducing bugs”, além de pagar o armazenamento em dobro (CIDR 2021). Os quatro autores são da Databricks, que vende lakehouse. A definição é a primária; a previsão de que o warehouse vai “definhar” é a opinião de quem vende a alternativa.

Qual pergunta de e-commerce cada arquitetura responde bem?

As páginas de definição da AWS e da Databricks param antes daqui: nenhuma das duas fala de ROAS, coorte ou marketplace. Para quem opera loja, a comparação que serve é por pergunta da diretoria: qual cada arquitetura responde bem e qual responde mal.

Pergunta do negócioData lakeData warehouseLakehouse
ROAS por canal no mêsMal: gasto de três plataformas em formatos diferentes, moeda e fuso por normalizar a cada consultaBem: gasto e pedido já modelados e unidos por data e canalBem, depois que as tabelas curadas existirem
LTV por coorte de 12 mesesGuarda o histórico, mas o ID de cliente não está unificadoBem, se o histórico foi carregado e o cliente tem chave únicaBem, com histórico barato e tabela versionada
Pedido do marketplace somado ao da loja própriaGuarda os dois, sem chave comum entre elesResponde se alguém modelou a deduplicaçãoIgual ao warehouse: a regra de deduplicação é trabalho humano
Evento cru do GA4, item a itemBem: é o lugar natural do dado aninhado e volumosoResponde, com custo de leitura por consultaBem
Reprocessar o ano quando a regra muda (ex.: frete sai da receita)Bem: o cru está láMal, se só o modelado foi guardadoBem, com versão anterior consultável
Treinar previsão de demanda ou recomendaçãoBem: acesso direto aos arquivosMal: o paper registra que TensorFlow, PyTorch e XGBoost não funcionam bem sobre warehouseBem
”Qual foi a receita líquida de setembro?”Não respondeResponde o que a query disserResponde o que a query disser

Sobre a linha do marketplace: o pedido do Mercado Livre não passa pelo seu GA4 e não compartilha identificador com o pedido da VTEX. Escrevi sobre isso em deduplicar venda entre site e marketplace. Nenhuma arquitetura cria a chave que a fonte não manda.

Por que o evento cru do GA4 bagunça a classificação?

Porque o dado mais “de lake” que um e-commerce tem cai, por padrão, dentro de um warehouse.

A exportação do GA4 vai direto para o BigQuery, numa tabela events_YYYYMMDD por dia. O dado é aninhado: event_params é um registro repetido para cada parâmetro do evento, e items se repete para cada item (Google, esquema da exportação). O Google descreve o conteúdo como “only the raw event data that Google Analytics receives from the client”, sem as adições que a interface aplica, e classifica a atribuição dessas exportações como “Last click observed, no modeling” (Google, exportação para BigQuery).

Na mesma página está o teto: propriedades padrão exportam até 1 milhão de eventos por dia (Google).

O produto é um warehouse e o uso é de lake. As três palavras descrevem padrões de uso, e o mesmo serviço pode cumprir dois deles. Para o seu time, vale perguntar duas coisas: existe uma cópia crua? Existe uma camada modelada?

Também explica por que o número do BigQuery não bate com a tela do GA4: são duas camadas diferentes do mesmo dado. O diagnóstico completo está em VTEX e GA4 não batem.

Em que ordem um e-commerce precisa disso?

Na ordem em que o dado se perde.

1. Guardar o cru, já. O dado de evento do GA4 padrão pode ser retido por 2 ou 14 meses nas explorações; 26, 38 e 50 meses só existem no Analytics 360 (Google). O que não foi copiado antes disso não volta. Lake é a resposta mais barata para “não perder”, e por isso vem primeiro, mesmo sem nenhuma consulta pronta.

2. Modelar o que a diretoria pergunta toda semana. ROAS por canal, receita por origem, ticket médio. Isso é trabalho de warehouse: tabela limpa, chave definida, consulta rápida.

3. Lakehouse quando os dois começarem a divergir. Se o time mantém uma cópia no lake e outra no warehouse, e as duas já discordam, o formato de tabela aberto elimina uma das cópias. Antes disso, é otimização de um problema que a operação ainda não tem.

4. Camada semântica antes do primeiro agente de IA. Este passo não depende da arquitetura escolhida nos três anteriores.

Quanto custa montar cada peça por conta própria, com tabela de preço oficial, está em construir ou contratar um data lake.

O que nenhuma das três resolve?

A definição da métrica.

Lake, warehouse e lakehouse guardam linhas e executam consulta. Nenhum deles sabe se a receita do seu negócio inclui frete, se pedido cancelado no dia seguinte sai do mês, ou se o Pix pendente conta como venda. A coluna valor_pedido soma o que tiver dentro.

Por isso a última linha da tabela tem a mesma resposta nas três colunas. Mudar de arquitetura troca onde a query roda, mas não decide qual query é a certa. Quando a regra não está escrita num lugar só, ela está espalhada em planilhas, painéis e queries salvas, cada uma com sua versão. Para uma pessoa, isso vira reunião. Para um agente de IA, vira alucinação de métrica: resposta fluente sobre uma regra que ninguém aprovou.

O lugar onde essa regra fica escrita é a camada semântica. A relação dela com o warehouse, e por que as duas não competem, está em camada semântica ou data warehouse.

O que lakehouse não é?

Não é um produto. É um padrão de arquitetura, e há mais de uma forma de implementá-lo: Delta Lake, Apache Iceberg e Apache Hudi resolvem o mesmo problema com formatos diferentes.

Não é “lake sem modelagem”. A camada de metadados dá transação e versão ao arquivo, mas a tabela curada continua precisando de alguém que decida as colunas.

Não é garantia de governança. O paper diz que a camada de metadados é um lugar natural para controle de acesso e auditoria (CIDR 2021). Lugar natural não quer dizer que o controle existe; alguém precisa configurá-lo.

E não é substituto do warehouse em todo caso. O próprio paper admite que o acesso direto aos arquivos abre mão de parte da independência de dados que o banco tradicional oferece.

Quando isso passa a importar na sua operação?

Quando a segunda fonte começa a falar do mesmo número.

Com uma loja, uma plataforma de mídia e um analista, o relatório nativo resolve. O limiar aparece com o marketplace somado à loja própria, com a segunda plataforma de mídia declarando a mesma venda, ou com o primeiro agente de IA lendo a base. A partir daí, cada mês sem cópia crua é histórico perdido e cada relatório construído sobre regra implícita é retrabalho futuro.

É nesse ponto que a Precisian entra. A entrega é um lake isolado por cliente, na infraestrutura da Precisian, com histórico completo e conectores mantidos, e termina na camada semântica, com acesso pela IA, pela API ou pelo BI que o seu time já usa. A infraestrutura é nossa, o dado é seu. Você acessa a qualquer momento e, se sair, leva tudo.

O que este artigo não cobre?

Não compara fornecedores de warehouse nem de formato de tabela, e não traz preço. Para custo, o artigo de build vs buy usa a tabela oficial da AWS.

Não traz números de mercado sobre adoção de lakehouse. Os que circulam vêm de pesquisa de fornecedor sem metodologia aberta, e preferi não repetir nenhum.

E a tabela de perguntas reflete o padrão de uso mais comum de cada arquitetura. Um warehouse bem montado pode guardar cru, e um lake bem curado pode responder ROAS. O que a tabela mede é onde cada uma começa, não onde ela pode chegar com trabalho.


Se a receita de setembro tem um número diferente em cada relatório da empresa, a arquitetura não é o primeiro suspeito. O primeiro passo é medir quantas definições de receita existem hoje e em quais sistemas cada uma vive. Veja como o lake da Precisian organiza isso, sem compromisso de contrato, mas sem promessa de resposta em 30 minutos também.